Arte totêmica em Zé Carlos Garcia e Daniel Lie: epistemologias da transmutação e não da repetição

Ana Luisa Lima | crítica de arte
(texto publicado no website da exposição “Frestas Trienal de Arte”. SESC SP, Sorocaba, SP, 05 de novembro de 2017)

“Esta onipresença da ave, pondo sobre os espantos da selva o signo da asa, faz-me pensar na transcendência e pluralidade dos papéis desempenhados pelo Pássaro nas mitologias deste mundo […] Mas os conhecia através do verniz das pinacotecas, como testemunho de um passado morto, sem recuperação possível.”

Alejo Carpentier em “Os passos perdidos”.

 

Tenho por certo que o lugar do Paradoxo é onde se encontram as possibilidades latentes de novos modos de existir. Situação histórica em que paira sufocante uma sensação de encurralamento. Nesse espaço-tempo, condensado de presentes e passados, desastrosos e hostis, as formas tornam-se frouxas e desenvolvem uma polivalência que em um só tempo podem descambar para uma iluminação completa ou trevas ainda mais profundas. É nesse particular momento em que soam urgentes as fabulações e as invenções como exercícios práticos e simbólicos de ser e estar no mundo. As artes enquanto campo aberto das imaginações são as pontas de lança que abrem fendas para um novo por vir. Não à toa, em tempos opressores, que tornam impossíveis os modos de vidas plurais, as artes precisam estar em avant-guard. Ser as guardas que vão à frente abrindo caminhos, desfazendo trincheiras, vivendo as primeiras e mais fortes violências em nome de ideias e presenças que marcam mudanças revolucionárias.

Tais revoluções só são possíveis diante das elaborações de novos vocabulários estéticos que são em si uma abertura para novas formas de ser e estar no mundo. É nesse lugar que o experimental conduz as sensibilidades para fora do que está dado e, nesse sentido, os pulmões podem ensaiar novos fôlegos ao invés do sufoco. Os artistas Zé Carlos Garcia e Daniel Lie são produtores desses tipos de experiências em que se é preciso criar asas e alçar voos para além da constatação das realidades que oprimem. Há em ambos uma qualidade de dar às formas uma frouxidão nos significados triviais e que com os significantes atormentados por uma alquimia poética evocam novos corpos, novas sensibilidades, novos entendimentos, novos verbos ansiosos para se conjugarem.

Ainda que atinjam em cheio nosso estado anímico, as experiências que propõem começam no corpo encarnado cujo estado-matéria precisa elaborar uma dança por entre os objetos/instalações que instauram ‘campos estésicos’. Garcia nos faz mais acerca à encarnação de sabedorias das faunas, enquanto que Lie nos leva a uma reinvenção de si nos processos cíclicos e de transmutação guardados nas veias das floras. De modos diversos e contundentes em campos semânticos próprios, Garcia-Lie se tocam e fecham um ciclo totêmico cuja potência mágica é a da (re)criação. Que em tempos sombrios como esses, salvaguardam nosso filão atávico de sobrevivência. Essa mera mudança de paradigma põe em xeque uma série de preconceitos que convém denunciar nesses tempos atuais de discursos de ódio e violência de bases fundamentalistas.

O que se passa hoje é reflexo de uma construção cientificista de lidar com as coisas do mundo que estreita as possibilidades de leitura dos acontecimentos históricos. Pois, elegeu apenas uma epistemologia hegemônica da qual decorreu seu respectivo modo de contar a história em detrimento de múltiplas narrativas possíveis. Essa eleição de uma única mirada sobre os fenômenos da vida na Terra, que privilegiou os olhos como canal de percepção e a razão como única criadora de significados, estabeleceu relações de poder desequilibradas: economias, políticas e desenvolvimento socioambientais em completas disfunções porque alicerçados em hierarquias hegemônicas. Baseado em “Ficções de Superioridade”, o mundo Ocidental se organizou – e pensa organizar todo resto. E no que deveria ser uma Comunidade Global igualitária, tem-se uma estrutura opressora que naturaliza as ficções de que uma cultura é superior a outras, um grupo étnico é superior aos outros, que a espécie humana é superior às demais espécies da natureza, que um conhecimento científico moderno é superior às sabedorias milenares etc.

Esse modo unilateral e ‘monocromático’ de construção de mundo mantém-se replicado nos modos de construção de conhecimento. Vivemos, atualmente, um completo esgotamento das formas de criação que traz também um esgotamento dos modos de vida e, nessa direção, surge um ‘looping’ monótono de uma existência parcimoniosa, sem novidades. Voltados para mera reprodução de discursos, os campos de conhecimento humano encontram-se estreitados pela falta de imaginação – essa que é a faculdade humana capaz de produzir futuros inacreditáveis.

Mas há um número considerável de artistas que preferem a constatação da opressão no lugar de transcendê-las, e o fazem de modo repetitivo, empregando formas usadas no passado cujo propósito de reinvenção cumpriu sua jornada histórica. Repetem meros dispositivos e não proposições existenciais, a saber: mapas, bandeiras, frases de ordem, trabalhos de outros artistas reiterando uma obviedade dada em cada forma de vida oprimida nas ruas. Parte da classe média em sua condição raquítica de pensamento celebra essas formas-ocas como expiação de suas culpas. Entre festas, viagens e prêmios vai-se reificando a parcimônia enquanto modo de vida.

Ainda que uns pensem que as formas plurais de existir estão sendo aniquiladas pelo fascismo – modo claro de autoengano – o que tem ameaçado nossa vida na Terra é a monotonia. O esgotamento das formas de viver. A humanidade está ameaçada por repetir-se. Seremos extintos pelo tédio.