Corpos labirínticos

Valesca Veiga | jornalista, pesquisadora e editora de O Fermento
(resenha publicada na revista O Fermento em 06/jan/2019 por ocasião da exposição “Torto” (Cassia Bomeny Galeria, Rio de Janeiro, 2018).

Tudo o que é híbrido provém de naturezas distintas. No campo da ciência genética, é oGarcia-2-2 resultado de cruzamentos entre espécies animais ou vegetais. Na linguística, a palavra nova é formada a partir de apropriações de elementos oriundos de diferentes línguas. Quando pensamos em cultura, pode ser sinônimo de mistura, mixagem, miscigenação e diversidade. Propondo reflexões sobre a relação arte e natureza, a exposição Torto, de Zé Carlos Garcia, constrói um franco diálogo com o hibridismo, a história e a antropologia. Numa composição poética que mescla materiais originários das raízes culturais brasileiras como penas, couro e madeira, o artista apresenta nova série com 13 pares de esculturas que ocupam a Cassia Bomeny Galeria, até o dia 09 de janeiro.

A plumagem indígena sempre exerceu fascínio em Garcia desde a infância, assim como o couro das vestimentas dos cangaceiros e a madeira das carrancas e do mobiliário colonial português, tão presentes na tradição nordestina. A matéria herdada deste caldeirão histórico-cultural imaginário se une a um processo criador acurado e a um “fazer” minucioso. As penas, que integram a pesquisa do artista sergipano desde 2004, são autênticas e adquiridas de abatedouros avícolas certificados, passando pelos procedimentos de tratamento e higienização – expertise adquirido com anos de trabalho no carnaval carioca. As penugens, selecionadas por cor e feitio, de acordo com a plumagem de cada ave, cobrem volumes escultóricos abstratos chamados pelo artista de Pássaros.

A matéria herdada deste caldeirão histórico-cultural imaginário se une a um processo criador acurado e a um “fazer” minucioso.

Exposta em duplos híbridos, uma peça trabalhada em pena e a outra exatamente igual em formato, mas costurada em couro, a série Torto causa sensação de busca pela anatomia real do que conhecemos como pássaros. Procuramos referências que deem legitimidade ao formato das aves, mas o que encontramos são corpos “tortos”, moldados em novos arranjos estruturais subjetivos, despreocupados com a padronização formal mimética apesar do material nos ser familiar. Lanças torneadas e esculpidas em madeira perpassam as peças costuradas em couro, como se o que atingisse o corpo ou o próprio pensamento “torto” fosse também a sua defesa, agregando mais um componente simbólico inspirado na herança arquitetônica colonial e no mobiliário da casa grande. Além dos pares de esculturas, a mostra conta com outros trabalhos, como o díptico Autorretrato, onde o artista se apropria de encostos de antigas cadeiras coloniais, sustentando volumes abstratos cobertos por penas negras. As peças de madeira não são resignificadas na obra: apesar de perderem a função de cadeira, não se tornam partes dos pássaros, continuam como mobília incorporada ao trabalho.

O crítico de arte Frederico de Morais, em 1975, descreveu o artista contemporâneo não mais como “o que realiza obras dadas à contemplação, mas o que propõe situações que devem ser vividas, experimentadas”. A experiência que transformava o espectador em participador da obra havia adquirido contornos irreversíveis na arte brasileira após o movimento neoconcreto. Para Zé Carlos Garcia, sua obra também só se concretiza quando passa a ter relação com o imaginário do observador, quando este tenta encaixá-la e vivenciá-la, de alguma forma, em sua própria paisagem interior, seja ela onírica, política, ligada à memória ou com qualquer outra significância. Na vivência de um devaneio da forma, o espectador se encontra com a representação simbólica do híbrido, tanto na miscigenação dos materiais e na diversidade da construção da cultura brasileira intrínseca nos trabalhos, quanto no questionamento do próprio conceito de volume estático em escultura. A organicidade da plumagem e da forma ampliam a perspectiva da situação de imobilidade das peças, que passam a conviver com a ideia de movimento. Corpos labirínticos, híbridos de nossas raízes, provocam reflexões sobre a consciência de nossa sinuosa história, trazendo relevância para discussões atuais como a situação indígena e a diversidade cultural.