Grande Circo Floresta

Cláudio Oliveira | filósofo
(texto publicado no catálogo exposição “Grande Circo Floresta”. Galeria Portas Vilaseca, Rio de Janeiro, 2021)

Grande Circo Floresta é o resultado de mais de dois anos de trabalho do artista sergipano Zé Carlos Garcia. A pandemia da Covid-19 e o seu consequente isolamento acentuou ainda mais o mergulho que esse escultor realizou em si mesmo, na sua história e na nossa realidade, gerando os trabalhos que ora são expostos ao público.

Materialmente, a exposição se constitui de esculturas feitas em madeira (sobretudo oiti, eucalipto, pinus, ipê, mas também roxinho e candeia para alguns detalhes). Os objetos esculpidos são basicamente de quatro tipos: pegadores de frutas, espantalhos, carrancas e lanças. Eles se encontram dispostos nas duas salas da Portas Vilaseca Galeria da seguinte forma: os pegadores e os espantalhos, na sala do andar de baixo; as carrancas e lanças, na sala do andar de cima. Essas diferentes esculturas se encontram, no entanto, amalgamadas em muitos aspectos, formando um todo bastante coeso.

Os pegadores de frutas colhem principalmente jabuticabas, um fruto nativo da nossa Mata Atlântica e que, no Brasil contemporâneo, ganhou o sentido de qualquer coisa absurda que só existe entre nós, em geral ligada à política, ao governo e às instituições nacionais. Do fruto delicioso à realidade intragável, do país tropical ao país colonial, passamos do paraíso ao inferno sem que precisemos trocar de imagem. Somos uma jabuticaba.

E é, por isso, entre jabuticabas que Zé Carlos Garcia constrói o seu Grande Circo Floresta, trazendo à tona toda a ambiguidade da nossa cultura.

Como um avesso do carnaval (no qual o artista trabalhou como escultor durante muitos anos), a exposição parte do mito das três raças que nos constitui sem, no entanto, a fantasia do encontro feliz que é encenada a cada ano na passarela do samba. Vivendo num eterno futuro do pretérito, isto é, entre um futuro salvífico que nunca chega e um passado mórbido que nunca passa, o próprio povo brasileiro vai criando suas mandingas para se proteger dessa condição indefinida.

Assim, na entrada da exposição, como que nos recebendo e nos purificando, há três espantalhos: um primeiro, com as figuras de um Uratau, pássaro que simboliza força e que nos protege dos perigos; um segundo, que traz um olho-de-boi, uma semente para afastar o mau olhado; e, por fim, um terceiro, com cascas de ovos, que segundo as crenças populares protegem as plantas das pragas.

Há ainda, nessa primeira parte da exposição, um enorme quiabo esculpido em eucalipto (“quem come quiabo não pega feitiço”) jogado pelo chão. Nas tradições do candomblé, trata-se de um fruto muito utilizado no culto de vários orixás, como uma oferenda através da qual se pede proteção.

A escultura do quiabo traz, já nesse primeiro momento da exposição, a referência às carrancas que o público encontrará no andar superior da galeria, mas, diferentemente da verticalidade que as constitui, o quiabo é mostrado em sua pura horizontalidade. Mesmo que remeta às carrancas, o quiabo guarda uma singularidade que faz com que, na economia da exposição, ele se encontre sozinho, isolado das outras peças.

Também nesse primeiro setor da mostra, alguns aspectos dos pegadores de frutas apontam para as peças que se encontram no andar de cima da galeria. Dois dos pegadores de jabuticabas têm o seu corpo esculpido com a mesma forma em espiral das lanças que se encontram na segunda parte da exposição.

Além disso, há dois pegadores que não colhem jabuticabas: um deles traz uma goiaba e o outro, um caju. São referências às cidades em que Zé Carlos Garcia nasceu e cresceu e que dão nomes às peças: respectivamente Aracajú (a referência ao fruto está no próprio nome da cidade) e Niterói (quem lá nasce é chamado de papa-goiaba). A presença dessas cidades no título dos trabalhos lembra como a história do artista é um dos elementos-chave para a compreensão de Grande Circo Floresta.

Essa história comparece ainda em uma das primeiras carrancas que encontramos na segunda parte da exposição e que tem como nome Porto da Folha, em referência à cidade localizada na microrregião sergipana do Sertão do Rio São Francisco onde Zé Carlos Garcia viveu os seus primeiros anos de vida junto com sua família e com a qual manteve, mesmo tendo partido dali muito cedo, um vínculo muito forte.

Porto da Folha, essa belíssima peça esculpida em eucalipto, ipê e pinus, traz para dentro da galeria toda a paisagem natural do sertão sergipano: sua aridez, seus espinhos, suas flores raras. Mas Porto da Folha também nos traz toda a paisagem cultural que dará origem à tradição das carrancas do Rio São Francisco e que é uma das referências mais fortes de Grande Circo Floresta.

Carrancas são originalmente esculturas de madeira com forma humana, vegetal ou animal, que se colocam na proa das embarcações que navegam pelo Rio São Francisco. A princípio meramente decorativas, elas logo ganharam um caráter místico para as populações ribeirinhas que começaram a lhes atribuir o poder de afugentar maus espíritos.

Segundo Luís da Câmara Cascudo, o célebre estudioso nordestino do nosso folclore, as carrancas são os nossos correspondentes das gárgulas medievais. Em geral, as gárgulas são esculturas colocadas na parte saliente das calhas de telhados que, na Idade Média, eram ornadas com essas figuras monstruosas, meio humanas, meio animalescas, comumente presentes na arquitetura gótica.

As carrancas de Zé Carlos Garcia, mesmo tendo como referência fundamental o sertão do Rio São Francisco, estabelecem uma linha de continuidade warburguiana com essas figuras imaginárias medievais que podemos fazer remontar também até a obra de Hieronymus Bosch, o pintor brabantino que viveu entre os séculos XV e XVI. Durante o processo de curadoria, a obra de Bosch sempre retornava em minhas conversas com o artista.

As carrancas que encontramos nessa segunda parte de Grande Circo Floresta são seres imaginários típicos do bestiário muito peculiar que caracteriza a obra de Zé Carlos Garcia. Além de Porto da Folha, já citada, há ainda Carnívora, Caramujo, Bom cabrito não berra e Rainha azul.

Carnívora e Caramujo dialogam com a mesma paisagem sertaneja que vemos em Porto da folha, mas se assemelham mais a esses típicos seres imaginários a que nos referimos antes e que habitam o universo criado pelo artista: meio animais, meio vegetais, meio humanos.

Nelas encontramos também as línguas a que Zé Carlos Garcia já vinha se dedicando em um trabalho anterior (Série Línguas, 2019-2021), mas também os ovos que aparecem em um dos espantalhos da primeira parte da exposição. Bom cabrito não berra, em que podemos ver pedaços do corpo de um cabrito amalgamados com a forma em espiral que caracterizam as lanças que se encontram nessa segunda parte da exposição, faz referência àqueles que, mesmo sob tortura, não entregaram seus companheiros de luta. A peça remete, assim, tanto à imagem cristã do cordeiro de Deus e do sacrifício, quanto ao trauma da ditadura militar brasileira.

Nesse conjunto de peças, há, ainda, uma última carranca, à qual o artista deu o título de Rainha Azul, da qual falaremos mais à frente.

Mas voltemos nosso olhar, antes, para uma das paredes da sala, na qual se encontra fixa, sozinha, a escultura Sagrado coração, que parte igualmente, como é óbvio, de uma referência ao catolicismo, mas, ao mesmo tempo, a esse coração, órgão humano, que se encontra em sua base e que se transforma rapidamente em uma grande espiral. Há, aqui, um devir que caracteriza praticamente todas as peças da exposição, que faz com que elas sempre apontem para uma transição, que tanto pode ser para a violência, quanto para uma elevação de tipo espiritual. O painel que se encontra na parede oposta ao Sagrado Coração radicaliza essa experiência.

Chamado pelo artista de Capote, o nome faz referência ao modo como são chamadas as galinhas d’angola no nordeste brasileiro. Trata-se de um painel composto de 12 peças espiraladas que dialogam com trabalhos anteriores do artista, feitos em madeira, mas com o uso do torno, e que se inspiram no mobiliário português (outra referência importante da obra de Zé Carlos Garcia), como Jogo (2013), Prumo (2014), entre outros. Mas, diferentemente desses trabalhos anteriores, as esculturas de Capote são todas esculpidas à mão, dando uma crueza maior às peças, que perdem sua referência ao mobiliário português e assumem a forma de lanças, mais próximas das culturas indígenas e africanas. Se as formas espiraladas nos lembram um movimento de elevação espiritual, as lanças nos preparam para a guerra desses povos oprimidos pelo falso mito da harmonia entre as três raças.

Capote traz ainda uma particularidade: algumas das lanças do painel são cobertas pelas penas de galinha d’angola, dando ao trabalho uma incrível beleza, ao mesmo tempo abstrata e primitiva. Trata-se do primeiro trabalho em que Zé Carlos Garcia se utilizada da pena desse animal, ele que se tornou conhecido do público das artes visuais por suas enormes esculturas com penas de pássaro. Em Grande Circo Floresta, em geral, a escultura com penas dá lugar à escultura em madeira, mesmo que a estranheza dos seres esculpidos se mantenha a mesma.

Mas, além de Capote, que utiliza de forma muito discreta as penas de galinha d’angola, apenas uma outra peça da exposição também possui penas. Trata-se da carranca Rainha azul, a que já nos referimos, talvez a mais fascinante peça de toda a exposição. Construída com penas de faisão pintadas simulando as penas de uma arara azul, ela pode ser entendida como uma verdadeira rainha de bateria, vindo à frente desse grupo de carrancas. É ela a verdadeira rainha da exposição, que nos diz, em última instância, que é o carnaval que permite que todos esses elementos díspares se encontrem através do trabalho admirável de Zé Carlos Garcia.

Num itinerário artístico que poderíamos situar, se quisermos referências, entre as obras do mestre Galdino e certos trabalhos de Tunga, passando pelo carnaval carioca, pela obra musical de Tom Zé e pela obra iconográfica de Bosch, Grande Circo Floresta é o trabalho de um artista que fez um profundo encontro consigo mesmo, num mergulho ao mesmo tempo pessoal e social, e que nos traz notícias desse encontro.