Natural

Paula Borghi | curadora e crítica
Rio de Janeiro, outubro de 2017

Antropologia e artes visuais: a percepção do que nos cerca através do sensível.
Outras naturezas, outras culturas, novas formas de ver o mundo e conviver junto.

 

Falar das coisas que nos cercam através de um olhar que busca compreender o que é natural pode nos levar automaticamente para o seu oposto, o que é artificial. Mas, por que não ampliar este espectro e pensar a natureza em oposição a cultura? Em uma conferencia em Paris no ano de 2007, recentemente publicada pela Editora 34 em “Outras naturezas, outras culturas”, o antropólogo francês Philippe Descola questiona como o homem organiza o mundo através da diferença entre aquilo que é natural e aquilo que é cultural.

Se em um primeiro momento podemos compreender a natureza como tudo aquilo que existe no mundo sem intervenção do gesto humano (oceanos, montanhas, florestas etc…), a cultura é tudo aquilo que o toca (obras de arte, leis, ferramentas, cidades, idiomas etc…). Em um segundo momento, é possível observar que muito daquilo que nos cerca é natural e cultural ao mesmo tempo.

Por exemplo, o porrete de madeira utilizado na obra de arte “Exaustas” de Marcone Moreira é um objeto natural, um tronco fino de madeira encontrado na mata maranhense. Contudo, esse pedaço de madeira é um porrete utilizado por mulheres da região para a extração da semente do babaçu; exerce uma atividade técnica e logo cultural. Neste caso, o objeto não é apenas caracterizado como cultural por ser uma obra de arte, pois antes de ser compreendido como obra de arte ele já exercia uma função cultural por ser um instrumento de trabalho.

Indo além, Descola provoca esta ideia do homem ocidental como protagonista da cultura, questionando os parâmetros que definem os humanos (nós) e os não humanos (plantas, animais e objetos). Segundo sua experiência como etnógrafo com o povo indígena Achuar da Amazônia equatoriana e posteriormente como antropólogo comparando povos indígenas de outros continentes, Descola critica nossa maneira de tratar animais e plantas como não humanos, logo como não formadores de cultura.

Exemplificando uma série de estudos sobre povos indígenas que entendem plantas e animais como pessoas ou sujeitos, somos apresentados a uma humanidade através de sua essência e não através de aspectos físicos. Segundo o autor, para os Cri (indígenas do norte de Quebec, Canada) a diferença entre os animais e os homens é mera questão de aparência, uma ilusão dos sentidos baseada no fato de que o corpo dos animais é um tipo de fantasia que vestem quando os humanos estão por perto, a fim de enganá-los sobre sua verdadeira natureza.

Em paralelo, podemos pensar no trabalho “Cabeça de Porco” de Zé Carlos Garcia, em que uma cabeça de porco é operada pelo artista através de um processo cirúrgico escultórico que transforma a feição porcina em humana. Um objeto contemplativo que é também servido ao público como alimento, um trabalho de arte que nos provoca a refletir exatamente o que é humano, pois ao comer a cabeça do porco estamos comendo a imagem/ideia de uma cabeça humana.

Neste sentido, Zé Carlos Garcia pelas artes visuais e Descola pela antropologia nos incitam a repensar nossa maneira de conceber a relação dos humanos com os animais e plantas, nosso lugar como os únicos a poderem criar cultura, a olhar a natureza não mais como fonte de recurso dos quais podemos tirar proveito, mas de nos entendermos ligados a ela por sermos todos humanos e formadores de cultura.

Somos motivados a ver a “alma” da natureza e parar de tratar o mundo meramente como fonte de riqueza e a buscar novas formas de viver junto.