Pó ao pó

Isabel Portella | curadora
(texto referente à exposição “Do pó ao pó”. Rio de Janeiro, maio de 2017)

Aqui tudo parece que era
ainda construção e já é ruína
Claude Levi –Strauss
Tristes Trópicos

As obras de Zé Carlos Garcia promovem a reflexão sobre diversas questões e simbolismos que acompanham o ser humano desde sempre. Vida e morte, permanência, deterioração, pedra e pó são algumas das instigantes propostas exploradas pelo artista visual que, ao retomar sua pesquisa sobre monumentos urbanos, traz para a Galeria do Lago, no espaço do Museu da República, bustos em pedra sedimentar. Seus trabalhos escultóricos caminham na contramão das obras criadas para a posteridade e executadas em materiais consistentes, dialogando com a dimensão da eternidade e da ruína, com a construção de um ideário e a perda do poder.

Existe, entre a alma e a pedra, uma relação estreita. Segundo a lenda de Prometeu, procriador do gênero humano, as pedras conservaram a ligação com o Homem, mantendo em suas entranhas até mesmo o odor humano. Quando os excessos de pedra são retirados, surge a alma, a essência do homem, aquilo que vai permitir a sua vida eterna. Mas se a pedra não suporta a ação do tempo ou da mão do artista, o que aparece é apenas um simulacro de rosto, uma vaga ideia dos cabelos ou do torso. Restará o pó. E o expectador então começará a se questionar sobre a imobilidade da pedra, sobre imagens que desaparecem aos poucos, memória e passagem do tempo.

Garcia elabora uma teia de relações com os simbolismos de poder, ruína e o que restará no final dos séculos. Apenas pedra sobre pedra, sem nomes ou referências, sem identificação. Suas obras trazem a impermanência do homem, da riqueza e do poder. Afinal viemos do pó e ao pó voltaremos.

O atual Museu da República e seus jardins, sede do poder que governou o país por tantos anos, é certamente o cenário perfeito para tais considerações.