Torto

Paula Borghi | curadora
(texto publicado no catálogo da exposição “Torto”. Cassia Bomeny Galeria, Rio de Janeiro, 2018)

Os que andastes pelo mundo, e entrastes em casas de prazer de príncipes, veríeis naqueles quadros e naquelas ruas dos jardins dois gêneros de estátuas muito diferentes, umas de mármore, outras de murta. A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa os olhos, sai outro que lhe descompõe as orelhas, saem dois que de cinco dedos lhe fazem sete, e o que pouco antes era homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre umas nações e outras na doutrina da fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas, uma vez rendidos, uma vez que receberam a fé, ficam nela firmes e constantes, como estátuas de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas. Há outras nações, pelo contrário — e estas são as do Brasil —, que recebem tudo o que lhes ensinam, com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram. É necessário que assista sempre a estas estátuas o mestre delas: uma vez, que lhes corte o que vicejam os olhos, para que creiam o que não vêem; outra vez, que lhes cerceie o que vicejam as orelhas, para que não dêem ouvidos às fábulas de seus antepassados; outra vez, que lhes decepe o que vicejam as mãos e os pés, para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da gentilidade. E só desta maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco e humor das raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural, e compostura dos ramos.

As palavras que introduzem este texto vêm do Sermão do Espírito Santo (1657) do padre Antônio Vieira, cuja a verdadeira missão acabou sendo a luta em romper com os paradigmas da colônia portuguesa e seus juízos preestabelecidos de que os indígenas não teriam alma e por isso não eram humanos. Um sermão que é tido pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro como referência ao entendimento da doutrinação cristã para com os povos ameríndios, visto o ensaio “O mármore e a murta: sobre a inconstância da alma selvagem”, em que o autor expõe uma magnífica análise crítica sobre o tema. Mas, além disso, essa é uma passagem histórica que suscita representações anedóticas às artes visuais para indagar a compreensão da humanização dos povos originários do Brasil durante o século XVI.

Trata-se de um assunto que infelizmente continua atual, visto que, passadas cinco décadas, o âmago do Brasil segue a sangrar em aberto. É na busca de estagnar esse sangue ou pelo menos o fazer jorrar em nossas caras, que a produção de Zé Garcia nos sugere pensar as artes visuais em diálogo com a antropologia e a história nacional. Entretanto, isso não significa que Garcia seja um artista etnógrafo ou historiador, pelo contrário, sua produção abre espaço para uma nova percepção dos estudos originários e contemporâneos ao encontro da emoção e da crítica nas artes visuais. Um modo de operar que se insere na lógica da arte contemporânea, ao mesmo tempo que tenciona as bordas da arte que tem como referência si própria. São trabalhos que traçam reflexões acerca de conceitos que envolvem as relações entre natureza e cultura no campo da subjetividade antropológica e da potência poética.

É sob essa percepção antropológica que Garcia nos recorda que em um primeiro momento podemos compreender a natureza como tudo aquilo que existe no mundo sem intervenção do gesto humano (oceanos, montanhas, florestas etc.) e a cultura como tudo aquilo que o homem toca (obras de arte, leis, ferramentas, cidades, idiomas etc.). Em um segundo momento, é possível observar que muitas coisas podem ser naturais e culturais ao mesmo tempo. Por exemplo, as penas usadas na construção das esculturas presentes em Torto são todas de origem animal, encontradas e recolhidas, em sua maioria, diretamente da natureza ou provenientes de aves que foram abatidas para o consumo, logo não são artificiais. Contudo, essas penas foram manipuladas pelo homem e se apresentam dentro de um pensamento escultórico, isto é, um elemento natural que se mostra dentro da ideia de cultura.

Entretanto, trata-se de uma cultura que antes de ser obra de arte já pertencia a outra cultura. As penas são adornos e instrumentos culturais que quando utilizados em sociedade identificam e organizam as instituições humanas, como xamãs, chefes, rituais, regras de casamento etc. Nesse sentido, para refletir sobre o significado dos materiais utilizados por Garcia é preciso, antes de mais nada, entender e trazer à tona a primeira carga cultural associada a esses materiais. E é justamente essa volta às origens que Torto incita; olhar para o que de fato é originário para então se pensar a arte e o mundo hoje.

Como a plumagem, a madeira e o couro também constituem os elementos originários das esculturas aqui presentes, logo, das culturas originárias e da cultura hegemônica. Pois, se por um lado se pode pensar a plumagem como adorno, o couro como atributos corporais e a madeira como a representação da floresta, por outro, esses mesmos elementos podem ser lidos como ícones do carnaval, do ruralismo e do desmatamento. São materiais naturais com representações simbólicas extremamente determinantes para o entendimento e a construção da(s) cultura(s) brasileira(s), tanto em seu sentido hegemônico, como plural (de entender a diversidade dos povos indígenas).

E não por acaso o termo brasileiro foi batizado pela colônia portuguesa como adjetivo que indicava aqueles que extraíam pau-brasil, que no tupi significa “madeira vermelha” devido à cor contida em sua resina. A palavra “brasil” deriva de brasa, uma vez que o vermelho da árvore está associado ao fogo. Trata-se da etimologia de nosso país que, assim como seus povos originários, encontra-se em ameaça.

Dessa forma, o que se apresenta em Torto como belas esculturas é preciso ser analisado em sua densidade conceitual e subjetiva. Pois, é nesse ímpeto em criar trabalhos que possam encantar por sua fluidez plástica e simultaneamente cutucar a consciência da história do Brasil — desde a colonização aos dias de hoje — que a obra de Zé Garcia atua tal qual como a estátua de murta: em um primeiro momento pode ser macia e dócil, mas quando observada com a devida atenção é muito mais complexa e resistente do que parece.