Tropical

Paula Borghi | curadora
(texto referente à exposição “Tropical”. Rio de Janeiro, outubro de 2017)

“A carne que como hoje é a carne que vai fazer falta em alguém amanhã” é uma frase que aparece nos sonhos de Zé Carlos Garcia desde sua infância. Às vezes acompanhadas por imagens de pessoas amputadas, a passagem segue o artista tanto dormindo como em sua prática de ateliê. Pois bem, vou contar uma história.

Em uma cidade interiorana do Estado do Rio de Janeiro havia um senhor que criava um porco como seu animal de estimação. O porco foi domesticado ainda leitão como se fosse um cachorrinho. As pessoas da cidade achavam estranho um porco ser criado como um membro da família, mas havia uma empatia por este cuidado. Era uma postura excêntrica e também espirituosa, existia uma graça em criar um porco como um ente querido.

Passados os anos, o leitãozinho cresceu e virou um porcão. O senhor também teve um filho, um lindo bebezinho. Um dia, o senhor e sua senhora saíram de casa, como de costume, e deixaram seu bebê aos cuidados da babá. A babá estava dando papinha para o bebê mas precisou ir ao banheiro e o deixou sentado no chão. Neste breve intervalo de tempo, o porco entrou na sala e comeu toda a papinha, inclusive a que estava nas mãozinhas do bebê e por isso acabou, também, comendo seus bracinhos. Talvez o porco comesse toda a criança se a babá não tivesse voltado a tempo. O menino sobreviveu e cresceu sem os braços, a babá foi espancada e o porco assassinado por seu senhor. Esta é uma história Tropical e verídica que nos aponta para uma possível leitura desta exposição.

Cabeça de porco é uma cabeça de porco operada pelo artista através de um processo cirúrgico escultórico, procedimento que transforme uma feição animalesca em humanizada. Este trabalho foi apresentado algumas vezes, a primeira em 2005 com o subtítulo Severino e a última em 2016 com o subtítulo Pig. Trata-se de uma obra que aponta para uma crítica do cenário político brasileiro em sua época. Não à toa, a cabeça de porco presente nesta exposição é apelidada de Leitão.

Em 2006 a Cabeça de porco foi além da cabeça do animal, nesta todo o porco passou por um processo cirúrgico escultórico para se assemelhar á imagem corporal de uma criança. Um trabalho que ora se restringe à cabeça e ora à totalidade da anatomia deste corpo, que pode ser apresentado no sal grosso como objeto contemplativo, como também pode ser cozinhado e servido ao público como alimento. Aqui leitão é servido ao público acompanhado por jabuticabas.

Enquanto a Cabeça de Porco traz a presença do animal de forma mais frontal na exposição, uma série de esculturas realizadas com plumagem negra pousam neste mesmo ambiente. A beleza e a exuberância escultórica presentes em cada peça desta série são elementos fundamentais para a construção desta narrativa que atrai o olhar ao mesmo tempo que desperta uma consciência repulsiva.

É nesta dicotomia entre o homem e animal, atração e aversão, escultura, corpo morto e alimento que a produção de Zé Carlos Garcia nos perturba. Tropical é como a história do menino que teve os braços comidos pelo porco incomoda por despertar pensamento acerca de valores éticos, morais, naturais, culturais, sociais e da vida em sua forma mais crua: a morte.