Zé Carlos Garcia e a pulsão de morte

Angela Mascelani| curadora
(fragmento do texto do catálogo da exposição “Criaturas Imaginárias”. Rio de Janeiro, 2013)

A produção de seres plumados de Zé Carlos Garcia inclui, por contraste, a sensação de morte, de abandono, e desafia a ideia de escultura como algo imóvel. Talvez seja entre os participantes desta mostra o que mais explora as relações intrínsecas entre o bicho e o homem. Há algo de humano em seus pássaros que nos sensibilizam para a vida que se esvai. Sua PET 2012 evoca o abandono das vidas que recém findaram. Ao contrário da obra de Angelo Venosa, o tempo depois da morte ainda não transcorreu. Só há superfície, e ainda nenhum vestígio das estruturas.

Em sua produção, nada poderia se enquadrar de maneira mais direta na ideia da supra-realidade do que o experimento cirúrgico conduzido por ele e que deu origem à obra Severino. Instigado pelas evidências genéticas que aproximam o homem e o porco, Zé Carlos criou este novo ser a partir de incisões, cortes e costuras de um animal morto. Ao seu próprio ilhar a criatura era “pavorosa”. Mas o ato criador era constitutivo de um novo corpo, híbrido. Uma criação que destruía, quase que a um só golpe, as referências que distanciam humanos de animais. E colocava a questão: somos apenas corpo? E ainda: de que corpo estamos falando? Perguntas que também ecoam do ser plumado que integra essa mostra.