Zé Carlos Garcia

Olívia Ardui | crítica e curadora
(texto publicado no catálogo da exposição “Frestas Trienal de Arte”. SESC SP, Sorocaba, SP, 2017)

As esculturas de Zé Carlos Garcia se apresentam como entes insólitos que podem tomar a forma de insetos imaginários, uma vez que resultam de uma combinação de membros de diferentes espécies, ou ainda da mescla de plumas e partes de mobiliário de madeira. Dessa junção originam-se híbridos que, além de conservar os significados das partes que os compõem, geram uma curiosidade mórbida em relação à sua natureza. Garcia parece assim evidenciar certa perversidade do público, refém, entre estranhamento e fascínio, de seu próprio voyeurismo diante de corpos dilacerados, por mais fictícios que sejam.

Em Frestas o artista apresenta um conjunto representativo de sua produção dos últimos oito anos. Nas obras Cadeira e Pássaro, por exemplo, explora as qualidades formais dos materiais e imprime um movimento dinâmico às penas, o que parece desmentir a condição objetal das esculturas, que se erguem como presenças enigmáticas. Semelhante efeito acontece em Ganimedes, uma massa monumental e informe coberta de plumas negras que ocupa o espaço expositivo. A obra não remete propriamente nem a um manto, nem a uma asa: é um estado de corporeidade híbrida, cujo gesto parece ter sido suspenso no tempo. Gesto semelhante ao de Zeus, que na mitologia grega reina sobre os deuses e os homens, quando rapta o jovem Ganimedes. Esse príncipe de Troia cuidava dos rebanhos de seu pai quando foi visto por Zeus, que, encantado por sua beleza, e num ímpeto entre a sedução e o sadismo, transforma-se em águia para leva-lo e torna-lo servo dos deuses do Olimpo.